terça-feira, fevereiro 20, 2007

acontecimentos

eu espero
um acontecimento
mas quando acontece
é festa no outro apartamento

sentado aqui
já não sei quando tempo
sua espera
e uma divisão do sofá

toco com o olho
o telefone
em suspenso
alguns milímetros
mais próximos, nós dois

e lá no fundo
como barulho do mar
o som da solidão
encostada na varanda

(assoviando
pelas persianas
das venezianas)

e tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar

enquanto espero
de lá pra cá
pela cidade
seguindo a rota de cada dia
olhando pra baixo
pelo afeto que tenho pelos buracos da calçada
e do asfalto
e essas poças de lama
e panfletos amassados jogados ao chão

todos ali
pro que der e vier
sempre

pendulando
como o ventilador branco de teto
que tem de fundo a parede branca
e é meu relógio
e roda sem parar
projetando sombras na parede vazia
e entre quartos
e entre salas
mesmo ao apertar do interruptor
ainda girando e girando devagar
lances de luz de claro e penumbra no claro do branco
deslizando

pelo apartamento

terça-feira, janeiro 30, 2007

like a feather (you and me)

como uma pluma
envolta em ar e em si
e sem roçar, paira

isadora


o véu mais voa do que veste
a pele é uma penugem que se curva
e esses pés que partem e pousam
num ritmo de pássaro em cada pulso...





*Espetáculo em homenagem à bailadora Isadora Duncan
http://www.youtube.com/watch?v=zRaKB7n7XmM - parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=jvy-p4ljISU&mode=related&search= - parte 2

vi pétalas mas pensei plumas

e daí,
se as pétalas também já não voam
fora das flores
assim como as penas.

a não ser nas tuas mãos.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

abençoada seja a solidão

para que possam existir esses espaços
como num átimo em que tudo é excesso
e de repente não falta nada
nem privacidade

porque o contato com o outro
não é mais contato
é ínfimo, é mínimo
é todo

num existir junto sem fazer barulho
em que não há sequer necessidade
de dizer tudo bem
e uma exclamação lá no fundo
de que se pode viver sem
porque já não seria possível nos separarmos

terça-feira, janeiro 09, 2007

Retratos

E de repente olhou
e realmente não era

Os retratos todos enfileirados dispostos com certa disciplicência pela parede alta e ampla do cômodo de estudos. Dos mais variados tipos e tamanhos, passeando de Rembrandt a Edward Hopper, todos quadros que lhe pintara. Tantos quadros que talvez deixassem qualquer um tonto. Mas não era esse o motivo pelo qual se encontrava agora trôpega: era pela descoberta.

Descoberta não, se recompôs, constatação. Constatação porque estavam ali o tempo todo, e ao mesmo tempo não era exatamente agora que notara... Há muito já havia percebido, aliás, desde o começo, perceberá mas não entendera, ou não quisera. Tão talentoso. Mas agora sim. Sem esforço nenhum e com total surpresa, entendera. Todos aqueles retratos ali, pela parede, seus retratos que adorava tanto, cada um uma lembrança... não eram realmente ela. Não era.

E foi nesse instante que sentiu tudo girar, e ela realmente girava, os olhos trôpegos cavalgando de quadro a quadro; não pelos próximos de um a um, mas aos pulos, de cima à baixo, diagonal e por todos os lados. Queria abarcar logo todos, e o fazia com fúria de ansiedade. Em algum deles deveria estar a chave para decifrar aquele mistério.

E de repente naquela busca se deparava novamente com sua imagem, parecia realmente ela. E não era. Tão parecida mas faltava alguma coisa, detalhe ínfimo que fosse. O detalhe existia, aliás, pensou, e era outra.

Não burra, não era tonta, como poderia não ter percebido por tantos e tantos retratos recebidos? Quadro à quadro os revisava, se reconhecia e estranhava. Aquela feição não era a sua, talvez o rosto sim, as bochechas rosadas e meio cheias, os cabelos bem lisos escorrendo aos lados do rosto, os olhos pequenos e ligeiramente fechados. Mas aquele sorriso lívido, aquela melancolia leve, com certeza não eram dela. Importara de outro alguém.
Mas ora, que besteira, não seria possível retratação tão fiel que não deixasse imperfeição. Mas não era questão de incoerência, sentiu, nem defeito. O que estava ali estava com perfeição e se não era ela, era outra. Ou outro.
Tudo lá, tão perfeito, começando pelo nariz, tão reto, pequeno, comum... tão comum que poderia ser o de qualquer pessoa. Talvez fosse isso, o nariz. Por aquele nariz se escapava o retrato de si. Qualquer um poderia caber naquele retrato, entrando pelo nariz.
Paranóia? Se fosse não se questionaria, como era possível, uma simples... Sou eu, é claro, que tolice. Bem se vê que houve esforço. Ora, que tola. Deselegância... Inveja, talvez. E agora via que tola era ela. Só quando sozinha e distraída o suficiente olhara de relance a parede e começou a pensar... E se... Mas como? E de repente já era tão certo e agora tão óbvio, mas não fazia o menor sentido. Talvez falta de habilidade... Não, não poderia, pois ao deixar de se reconhecer agora reconhecia outra coisa, que não sabia o quê, mas não ela.

E ela que sempre sentira aqueles quadros tão deles, presente por presente, o jeito dele de ver o mundo e não só isso, a maneira como gostaria de sê-lo, e lhe pintara assim. O que havia de errado não sabia ainda diagnosticar, mas sabia. Talvez um glamour ou mesmo um peso que não era dela, mas bem que gostaria. E os quadros, sempre notara, cada um mais diferente que o outro, mais lívida, impressionista, romântica, fugaz, linda. Às vezes desenhos rápidos feitos à lápis e papel numa tarde na casa de amigos ou piquenique; estes menos parecidos, mas enquadrados e guardados com tanto carinho.
Quem sabe mais relaxado ou em intimidade comigo, entre momentos de gozo, ele deixasse escapar esse outro, esse outro que parece desejar tanto quanto a mim. Agora tinha certeza, era outro, e não outra; era homem e lhe olhava. E de repente se assustou, e tapou a boca e caiu. Caiu desengonçada, mas leve, dobrada sobre os próprios joelhos. passou a mão sobre a testa, era frio e pensou, mas já sem nenhuma ansiedade.

E ao deixar de mirar a vertigem da parede, as coisas começaram a fazer mais sentido. Pensou em como vez por outra achara que superestimara a sua habilidade, em um prenúncio de estranhamento dentro da imensa alegria de recebê-los. Mas preferira acreditar que eram a maneira como lhe via, e por muito não pensava nisso. Talvez falta de habilidade, mas isso não suportava. Se tentava há pouco acreditar que sim, agora sabia que não, habilidade não faltava, e estava claro. Provavelmente não pra ele, mas pra ela, tinha certeza e via agora: era outro.

Jordana,

















num íntimo
num átimo
na inflexão exata
no momento da bala
que disparada
atinge o seu máximo

o momento em que, como bala,
não é eminência nem alojada
na distância exata
entre intencional e deflagrada
o momento em que oscila
entre fuga e amendrotada
o momento em que é só ameaça



*na foto, retrato de jordana vieira, aluna de balé da Vila Olímpica da Maré selecionada,entre mais de mais de 20 mil concorrentes a uma vaga no mundialmente famoso balé Bolschoi.
créditos: marcelo carnaval para a sessão retratos capitais.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Bem doida!

Ela faz versos como quem respira,
Fala como quem recita;
Escreve num pulso que é tão in
Que in pulsa

É música como que num riso
Num ritmo trôpego, bêbado
De si, cada vez mais
E mais e mais a cada instante
De vida, embriagada

Ela fala como quem recita,
E é, como quem respira
Mais vida, mais louca
Bem doida!

Feito música... Ressoa.


o céu é azul
tenho os pés no chão
e amo você

terça-feira, dezembro 19, 2006

talvez um gesto

desfizesse o enigma do teu rosto
mas meus olhos são setas claras e duras,
e os teus, entre feridos e culpados,
me encaram

na paralisia em que hesito
há lábios que se crispam
sobrancelhas contraídas
mas mãos abertas e alheias

não desfaço minha face, nem a tua,
e no silêncio de um instante
sequer balbucios entre nós dois

até lembrarmos dos olhos,
estes imunes ao silêncio,
a brisa sopra
entre paralelos e estáticos
nos derrubando lentamente,
dois retratos

quinta-feira, dezembro 14, 2006

para abrir depois do portão - velha versão

Esse foi um poema que perdi várias e várias vezes; toda vez que tentava registrar, ou o papel sumia, ou o pc dava pane, ou caía um raio na minha cabeça, etc, enfim. O fato é que certo dia acabei reconstruindo o poema em verso, pela memória, direto aqui no blog. Fiquei satisfeito com o resultado na hora, mas depois nem tanto. Pois hoje achei a versão em prosa que tinha escrito há um tempo atrás, e qual não é minha surpresa que ela me parece bem melhor do que a versão versificada que fiz depois. Minha primeira tentativa de prosa poética, confiram aí ;)



para abrir depois do portão



aquilino e diagonal, atravesso o retrato da árvore pintado na janela do carro. paro, aprecio, até que olhares em alarme me coajam. sigo. tropeço sobre a sombra dos pássaros parados na lâmina do meio-fio. mais tempo perdido, sigo. me assombro com a passagem rápida dos carros, enquanto me equilibro nas pedras tortas do canteiro. sigo. no percurso, uma pausa para pensamentos, se não fosse o assédio da cidade, que torna-se turba no vão da pista. algazarra, silencio. sofro a coação da parada. o reflexo tremido, nervoso, do espelho do ônibus. me vejo passando feroz como a paisagem
ao puxar do fio, o pensamento se desata. mas não sem antes me escrever um bilhete, que engarrafado, jogo para que bóie no concreto e asfalto. e sigo.

para abrir depois do portão.

domingo, dezembro 10, 2006

eita eita eita

''Vá ao pinheiral se você quer aprender sobre pinheiros, ou ao bambuzal, se você quer aprender sobre bambus. Fazendo isso, você tem que deixar de lado essa preocupação excessiva consigo mesmo. Senão você só se impõe no objeto e não aprende. Sua poesia emana do seu íntimo quando você e o objeto se tornam um. Quando você, enfim, vai fundo o suficiente para ver uma espécie de brilho escondido ali. Por mais bem fraseada que sua poesia possa ser, se seu sentimento não é natural, se você e o objeto estão separados, então sua poesia não é verdadeira poesia, mas só uma mera falsificação subjetiva.'' Matsuo Bashô



Interessante como mesmo falando sobre a necessidade de se apropriar dos objetos, sair do umbigo, Bashô reforça a importância do subjetivo, do eu. Não há expressão que não seja extremamente vinculada, irrevogavelmente, aliás, ao seu próprio modo de ser, seus interesses, sua subjetividade. Mas para não se encerrar nisso, já que a arte é algo socialmente inscrito, é preciso exercitar o apropriamente de outro eu, ou de partes do próprio eu que às vezes é deixado de lado. Estou escrevendo um conto há um bom tempo, e estou tentando me apropriar disso... Talvez quando eu publicar pensem que o que escrevo não tenha nada à ver comigo, que está algo por demais frio, mas isso seria apenas uma visão imediatista das coisas. Nem só de lágrimas vivem as emoções.
*editado: corrigi o ''senão'', que tava separado na citação.
Aproveito ainda pra falar de onde tirei a citação, trata-se da abertura de uma parte do livro Polivox, ''Satori Uso'', do poeta Rodrigo Garcia Lopes(eita nome!). Gostando muito das coisas dele, essa seção que é aberta pela citação é só de hai cais escritos verticalmente, como se fosse grafia japonesa, só que em português. O interessante é que, além de ser referência à origem do hai cai, a leitura vertical é mais lenta, o que é propicio ao clima do hai cai. Descobri inclusive que usei um dos peomas(sem título) como mote pra ''gato preto sobre gato preto'', poema que eu publiquei um tempo aqui atrás, sabendo que já tinha ouvido essa expressão, mas sem saber onde.
Reproduzo-lhe aqui:
Photobucket - Video and Image Hosting

terça-feira, dezembro 05, 2006

para abrir depois do portão

aquilino e cruel, transversal
atravesso os espaços que me separam do meu destino quotidiano
tropeço na sombra dos pássaros sobre o meio-fio

me levanto
e me espanto
com o retrato da árvore refletida na tela da jenela de um carro qualquer
olhares de vigilância incidem sobre mim, e fujo, coagido

mais diagonal do que nunca
percorrro os fios ao bater de cílios
me abismo ilhado entre dois tráfegos, e equilibro
a mim mesmo sobre fluxos opostos

sigo

sofro o assédio da cidade,
a turba presa no espaço entre a calçada e a pista
o baque surdo no vidro
e elogios pouco cordiais
o fremido dos freios dos carros
o som da cidade em frequente cio
do macho que toma à fêmea à força(a borracha e o asfalto)

mas sigo

o meu reflexo treme febril no espelho do ônibus,
imagens que passam indistintas, ainda que não tão velozes
formando um novo abismo
mas já é o fim da linha
e o pensamento se desata
ao meu puxar do fio

e sigo

naufragado entre concreto e asfalto
mas não sem antes me escrever um bilhete
para abrir ao fechar do próximo portão

domingo, novembro 12, 2006

vazinho

Olha o jardinzinho na varanda! Ela fez o chão de concreto, pra absorver a água que transborda dos pratinhos depois de cada vazinho ser encharcado cuidadosamente com o aguador. Olha só, ele é rosa, não é bonito? Mas que idéia, hein? Quem iria pensar numa coisa dessas? E ainda deixou aquela varandinha minúscula tão mais aconchegante... azulejo é uma coisa bonita, mas parece hospital, né? Uma idéia tão simples, tão simples, mas tão boa. Uma besteirinha mesmo, mas um efeito tão bom.

- Foi uma ótima idéia, Margarida, incrível como os pequenos detalhes fazem a diferença.

Risos. A outra assentiu com orgulho:

-Sim, sim, deu uma diferença, não é? Sabe que eu fiz sem nem saber se ia dar certo? Tava olhando outro dia o jardim de inverno da minha cunhada, quando viajei pro interior, ela foi me mostrar a reforma que tinha feito, eu achei lindo, ela disse que gastou tão pouco; concreto é barato, né? E em conta, eu pensei: porque não? Risos.

Uhmmm... Então a idéia nem fora assim tão original. Combinava com o apartamento, tudo tão simples, o sofá amarelo opaco com aquela parede branco gelo... Simpático até, aconchegante, mas bem simples, era mesmo o jeito do João, da Margarida, gente tão boa, ela tão inteligente, mas tão pouco afeita ao requinte... Pro João tanto faz, aliás, pra ele quanto mais prático melhor; não se importa de pagar uma boa nota por isso. De qualquer forma, a idéia tinha sido dela, quer dizer, mais ou menos dela, mas ainda assim parte sua; ela, que se recusara a ir no curso de decoração porque achava bobagem, melhor cuidar do curso de culinária vegetariana, o João engordava, o colesterol alto, ele beirando aos 40, aí já viu, né?

- Ainda bem que o Miguel faz yoga e dieta macrobiótica; ele até disse que ia comigo no curso, acredita? A gente tava querendo fazer uma mudança na casa, e...

-Hã? Curso... que curso?

-Ai, esquece, mulhé, tô misturando os assuntos. Cê lembra do curso de decoração? Poisé, queríamos dar uma geral na casa, ele não gosta como tá, nem eu. Sabe que a gente mudou meio com pressa, né, não dava mais pra morar na casa da mãe dele; ela não é que nem a sua; ela manda até hoje bolo pra vocês de vez em quando, né? Falando nisso é tão boa aquela receita, hein? Cê tem que me passar ainda. Pois então, como eu dizia, sabe como é, a gente foi se ajeitando aos poucos, primeiro a cama, é lógico, depois sofá, fogão, microondas, decoração. A geladeira a gente já tinha porque tinha comprado antes, né? Se a jararaca não tivesse surtado, tinhamos comprado mais coisa, é lógico, mas a gente teve que ir se virando com o que tinha. Eu sei que no final ficou uma coisa meio esquisita, muita coisa bonita, mas que não combinava, cê sabe como é, né? O Miguel tem uns gostos exóticos, eu adoro, detesto mesmice mesmo, mas fica difícil equilibrar...

-Mas que é isso, Cláudia, você tem um apartamento tão bonito!

-Ah, que nada, bondade sua, querida. Quer dizer, é bonito, claro, mas sempre pode dar uma melhorada, né? A gente, pelo menos, tenta...

-É...

Não consegui ainda... Claro que o apartamento era mais bonito que aquele ali; mas também, aqueles dois mal ligavam, era um desleixo com algumas coisas, era gente tão boa, não entender por quê. Mas apesar de tudo eram definitivamente ótimas pessoas.

-Quer biscoitos?

-Não, não, brigada, já comi minha cota hoje. E esse vasinho, de onde veio?

-Ah, foi da nossa viagem à Índia, sorriu.

-Uhmm, claro! Bem pude ver, esse tipo de pintura... Muito bonito, teve uma época em que foi moda, né?

-Foi? Eu acho tão bonitos, além daquela coisa, tem toda uma história, um negócio assim simbólico, algo a ver com Shiva ou com as castas...

-Com as castas? Ai, que horror! Por isso que não gosto desse negócio de tradição, serve só pra manter coisa ruim... Prefiro meus jarrinhos de plásticos, sabe que fora desenhados pelos irmãos Campana?

-Uhm, legal... E o Marquinhos, como tá na escola? Aquele problema das mordidas?

-Ai, o Marquinhos! Quase esquecia... querida, adorei a nova varandinha, mas tá na nossa hora, oito e vinte já. Você pode me levar até a porta?

-Que é isso, Cláudia, ainda tá cedo! Os meninos mal começaram a conversar... Deixa eles ficarem mais um pouco...

-Ah, Guida, eu adoraria, mas o Marquinhos tem já que dormir, aula cedo amanhã e ele não dorme com a empregada.

-Uhm, então tudo bem. Espero vocês de novo, então.

Sorriso na boca; na outra, dois beijinhos, o estalido da tranca da porta às suas costas. Mas não sem antes ter que passar novamente pela varandinha, decorada com o mais rude afinco, a salinha simpática e minúscula. Ao chegar ao corredor fechado, um suspiro; vaso de planta, tapete, quadro, tudo igual, seu andar. Miguel vai à frente, abre a porta; quatro metros percorridos com alívio, ela tira os sapatos antes de entrar... e ufa!

quinta-feira, novembro 02, 2006


CENA FINAL: CAMPO EM FRENTE AOS PORTÔES NEGROS. FORA. NOITE.



As tropas inimigas marcham de encontro uma a outra: um, três, um, três, um, três, sentido, confirma! Quatro, cinco, quatro, cinco, atenção, confirma... Sentido? Uma multidão de corvos impávidos colossos observam sobre os portões.

Enquanto isso, os dois casais remanescentes da Sociedade chegam à taberna para cumprir sua missão; defender o hobbit barbudo até o fim. Lula, sim! Depois de tantos obstáculos, longos meses de jornada, montanhas de dossiês, mídia, militantes, partidários e ex-coleguinhas, chegaram, dentro do possível, quase intactos e transatlânticos. Mas a tranqüilidade não dura muito; logo são rechaçados por uma terrível chuva de bolinhas de papel.

Recuam e recorrem a uma rodada de cerveja, por favor. Chega um momento, entretanto, que não conseguem sequer pensar em aceitar que o hobbit possa lançar seu anel no abismo, e hesitam; cantam o mantra lulalá, é de novo com a força do povo! E não ficam incólumes: arma-se o flagra da recusa de um documento-panfletário, e pronto, denúncia nela! Não quer ser apurada, aponta-lhe o dedo, afirma quem é você para falar em moral...
E no final de tudo, ficam os anéis e vão-se os dedos.

Sem noção? Eu? =o
Toma: http://noticias.terra.com.br/eleicoes2006/interna/0,,OI1194864-EI6652,00.html

quarta-feira, novembro 01, 2006

talvez um poema


que desfizesse o ritmo das tuas possibilidades,
transformásse em lá tua marcha ré,
e galopasses num ritmo sempre delirante
desfizesse o enigma do teu gesto, a ti mesmo,
te mantivesses ereto e firme como um lord inglês
dissesse não podes, não dá, mas irás conseguir
mostrasse o que há detrás de cada porta
e que pudesses mantê-las fechadas
revelasse tesouros por detrás de meio-sorrisos
e lhe lambesse os pés cansados
mas que nunca, nunca
nunca te prendesse dentro de um balão de hélio

domingo, outubro 29, 2006

Oh Marinheiro

Essa é a segunda versão do conto ''Oh Marinheiro''. A primeira saiu no zine ''Canhotos n#3'', que eu faço e organizo junto com um grupo de amigos da facul. Resolvi fazer essa segunda versão por ter ficado bastante insatisfeito com a primeira. Peço desculpas àqueles que já estão com o exemplar em mãos pelos erros, mas aqui tentei corrigí-los e melhorar o texto de forma geral. A estrutura permanece a mesma, apenas corrigi e fiz algumas alterações, inserindo e retirando algumas coisas. Não tenho costume de escrever contos, sou bastante imaturo quando se trata de prosa, mas aqui está a minha última e esforçada tentativa. Críticas muito bem-vindas, por favor, como disse no post anterior. Ah, o desenho abaixo é do Diogo Braga, via ferramenta ''manuscrito'' do msn. Achei que ficou muito boa pro contexto, obrigado!








O dedão do pé saltando fora do píer. A garota à espera do seu amado para vê-lo despontar no horizonte, do alto da proa, com seu corpo inclinado sobre a mesma, os cotovelos apoiados no parapeito e o cigarro quase esquecido, jogando cinzas no mar. Era sempre assim que chegava, a brisa soprando forte, enovelando os cabelos dela pelo ar, ao redor apenas o vento assoviando às suas costas. E ela ereta, imóvel, sobre a fina tábua de madeira, planando. À frente, somente o gargarejar forte das ondas do mar.


E o chamaria de azul, se nessa história coubessem alguns tons a mais de lirismo poético. Mas não, aquele mar era o mar de todo e dia e pronto. O mesmo mar que espiava pela janela, todos os dias, nos intervalos do trabalho e da rotina. Só não era o mesmo que à tardinha, quando o sol se pondo no horizonte era sempre novo, e bonito, e a coisa mais linda que. Nessa hora do dia não se contentava somente em esperar na janela ou pela rotina, e sempre corria até ver de tão perto quanto podia a luz escorrendo pela água, seus olhos deslizando de margem a margem. E o mar então não parecia tão terrível; porque o mar quase sempre o era, não um azul, como já disse, mas uma força. Força essa que tragava e cuspia seu amado em soluços violentos e desritimados. Mas não, nada disso, ali o mar parecia apenas bonito e belo e bom, o mar.


E a despeito do descompasso de suas passagens, o marinheiro começava a demorar cada vez mais na Cidade Portuária; alongavam-se seus passeios com a menina, das duas quadras da feira à casa dela, quando educado a ajudou com as compras, até a orla inteira de mãos balançando lado a lado, ele e a menina. Menina, sim, pouco mais nova, dois anos na verdade, mas o fato é que o consenso na cidadezinha era que ele era um rapaz e ela uma menina. O que não impediu que certo dia ela olhasse fundo com os olhos azuis nos olhos dele; ele falava de coisas que havia além do mar, qualquer bobagem como um tipo de teto diferente nas casas, e ela achava realmente pequeno, improvável, mas tão bonito que ele era mesmo muito sensível de reparar. E foi perdida pensando nisso que mirou firme seus olhos, e demorou pra perceber que pedia um beijo, sorte dela que ele também isso não esperava, não agora, assim, vindo dela. Perceberam quase na mesma hora, e ela se desfez toda em rubor, olhou pro horizonte como se algo lhe impressionasse, concentrada. E ele tentou reatar o olhar, se aproximar dela, mas ela já havia se fechado em recato. Já estava feito o pedido, entretanto; ela havia sentido, e decorou: um arrepio do cóccix até o pescoço. E o vento passava levantando seus cabelos.


Depois disso ele foi embora, como sempre fazia. Agora, no entanto, pra ela que normalmente não se importava tanto, era como se partisse pela primeira vez. As outras vezes haviam sido até tranqüilas, ao vê-lo partindo já sentia antecipadamente o gosto da sua volta, mais forte e bom do que antes de partir. Dessa vez, porém, sentiu um pouco a partida, como se a cada retorno ele voltasse menos e ela também. A cada dia que passava se regava de possibilidades, de passeios e palavras. Não, não era ela, fora ele quem regara: o toque no ombro quando avisou que havia prendido a saia no prego do píer, a mão na cintura ajudando-lhe a subir a escada. Foram todas promessas, ela sentiu. Mas três meses se foram; ela agora transbordava e sentia-o escorrer pelas bordas. As cartas que mandara? Voltavam. Ao recebê-las, relia-as cuidadosamente, como se tivesse enviado a si mesma e não soubesse o que nelas havia, rememorava suas lembranças e as sentia crescendo, como se fossem novas e acontecessem agora e de novo e sempre... E ele não chegasse nunca...


Mas como sempre, quando foi um belo dia, voltou. Digo, passou, era impossível voltar, nunca esteve. E ela sentia isso, tanta raiva que... Não importava, não ainda. Não mais, voltando ou passando, ele chegara. Trouxe uma rosa murcha e um botão de rosa feito broche; foi o gesto mais bonito do mundo. Uma rosa de lá do outro lado do mar: rosa azul, mas não de especial que fosse, era um azul de murcho, de ter viajado toda aquela maresia até ali. De qualquer forma, uma rosa de um lugar outro, ela que quase não ligava pras rosas daqui. O lugar de onde ela vinha, nem imaginar ela conseguia, era um lugar diferente, ela sabia, mas o via como sua cidade acrescida de um borrão de neblina, que ela sentia diferente. Talvez por isso a rosa fosse presente tão bonito. E junto veio um pedido, namorariam. E ele se foi.


Mas já não era ela tão sozinha, tinha uma coisa ao menos: era uma namorada. E um bom tempo se passa. Ela não saberia dizer quanto, pra cidade é muito tempo e pra ela mais ainda. Nesse intervalo, o flerte de vários rapazes, alguns deles tão ou mais bonitos que o marinheiro; atenciosos, mais educados até, achava. Nenhum, porém, tinha aquele cheiro de além-mar, nem aquele gosto de neblina.


Passou-se mais muito tempo, os rapazes continuavam aparecendo, elas os rejeitando paciente, até que os cortejos começaram a diminuir... Aos poucos, mesmo se desfazendo das investidas com toda a polidez possível, começou a ser vista com ressalvas. De qualquer forma vez por outra os flertes ainda aconteciam, na cidade já era considerada por todos quase como solteira, embora ela mesma se sentisse mais para quase como viúva. Não sentia-se livre, nem compromissada com algo presente, era uma dor do que acabou sem se perceber antes do acabar. E quando já quase não podia mais, ele voltou; sem o mesmo frescor da barba sempre aparada, naquele queixo impiedoso havia agora uma barba rala, e abaixo dos olhos, pequenas bolsas de olheiras começavam a aparecer. Cansado de tanto trabalho, pensou ela, já estava na hora de casar, cuidar direito do seu homem. E foi aí, ali mesmo no porto, que ele falou em noivado, de inesperado e excitadamente. Incrível como ficava feliz cada vez que voltava e lhe encontrava à sua espera no píer.


Não que fosse do tipo frívolo, pelo contrário, mais contido e auto-centrado não poderia. Seu sorriso não era aberto, mas de canto e de olhar arguto; quando demonstrava alegria quase sempre o fazia como se estivesse sozinho regozijando-se. Mas quando falava, há quão junto eles parecia estar! Não ela só, aliás, mas toda gente, conduzidos assim pelo seu ritmo, arfante. Daquela vez, porém, logo depois do pedido, de súbito entristeceu. Ficou cabisbaixo, falou à meia voz que não podia, não podia casar tão logo; precisava do ordenado da Marinha para sustentar a mãe doente. E aquela tristeza era tão estranha e tão pouco triste, que ela ficou confusa, titubeava; não sabia se era mentira, pois sequer havia o visto triste até então. Aquela tristeza que não tocava o chão, no entanto, era o que de mais próximo e humano ele já tinha apresentado. Ficou impressionada com isso, e lhe amou ainda mais; soube suportar a dor e disse que compreendia.


Começava a aprender a amar, ela sentiu. E com isso a tristeza se transformou em enorme alegria e a partida novamente quase não doeu. Ah, só esqueço de dizer, e é importante, ele deixara agora também outra coisa: era noiva! Não mais só, não mais namorada, ela agora tinha algo ainda mais precioso: um anel. Disse que não poderia casar agora, mas que ficava o compromisso, e lhe fez noiva, para desenlaçar de vez seu novelo de pensamentos. E fez até que os cabelos ao vento dessa vez permanecessem desembaraçados no porto, esperando. Não sei por quanto tempo, mas o texto termina, porque a espera dela não cabe em canto nenhum: não cabe aqui, não cabe nela.


sábado, outubro 28, 2006

sinto muito, falo pouco, ouço tudo que não se diz 2

Veio por meio desse, pedir encaricidamente que me batam, me pisam, cuspam e depois passem por cima. Quem escreve é mesmo muito desavergonhado, como quem levanta a saia no meio da freira: o prazer é de voyerismo sem vergonha mesmo. Por isso pisem, pisotiem, passem a mão: é pra isso que estamos aqui.

Escrever é uma necessidade e não um dom; escrever eu não sei, mas eu preciso. E quando digo não sei não é por humildade nem nada, mas porque não é sem muito esforço que eu consigo chegar perto de dizer o que queria, quase sempre não consigo. Aliás, conseguir não; tanger. E literatura não é biografismo por mais que seja feito de sangue e suor(mais suor do que se pensa, na verdade, e não de alma, sangue mesmo). Entre o eu e o escritor tem pelo menos o tal do lírico, e ninguém é lírico de verdade, é sempre uma invenção, nem que seja de si mesmo, ou, principalmente, de si mesmo.

Por isso não tenham pudor de dizer não entendi, achei confuso, não tá bom, esqueça, não escreva nunca mais, por favor! Porque eu vou continuar a escrever de qualquer forma, se deus quiser e ele há de querer cada vez menos insatisfeito, apesar de saber que satisfeito mesom eu nunca vou ficar. Nunca me convenço com elogios mesmo, mais garantido pra credibilidade de vocês que me desçam a lenha. Com carinho, claro, mas sem muita frescura.

E obrigado a todo mundo que lê, comenta, ou lê sem comentar mesmo, são todos muito bem vindos, sempre.

sexta-feira, outubro 20, 2006

por cima dos fios

ao bater de cílios
por cima dos fios
sobre a calçada,
pista casa gato muro chão

o fluxo contínuo interrompido
nós amarrados a cada poste,

pairando
paralelos
panorâmicos

sobre a textura dos dias,
asfalto
e lá embaixo
escorrendo
pelos vãos
e
dobras do cotidiano, esquinas,
meninas do sinal diruno,
saltimbancos do sinal de trânsito,
equilibristas do meio-fio, em abismo
ou garotas nas ruas escuras do centro,

nós, perpendicularmente isentos;
película do insulfilme,
cacos de vidro sobre o muro
e o tudo bem tudo bom
nos acenos de calçadas
opostas

quinta-feira, outubro 19, 2006