domingo, julho 22, 2007

O vidro e a paisagem

sol tropical
o ar-condicionado no máximo
dando aquele clima diferenciado
mendigos na calçada
coreografia dos gestos displicentes
cenografia de novela da globo
lugar em que a gente se sente

fora da cidade

avenida de prédios baixos
vitrines de dois andares
o céu estalando de azul
o clima intimista da iluminação pontual
o negro ameaçador guardando o carro

a transparência dura
enquadra e funda a paisagem

quinta-feira, julho 05, 2007

chuvas de Junho

Meu rosto apara
os pingos de chuva
que apagam o sol de meio dia

A calçada
pela primeira vez é fresca
e os pés se apressam,
culpados,
sob o doce prazer
de estar ficando gripado

Eu gosto mais de maio

Poema em Junho:

Hoje a saudade bateu
PÁ, PÁ, PÁ!
Deu dois tiros e sumiu

(Seu cheiro passou
enquanto eu esperava
na parada)

domingo, maio 27, 2007

nimbus de maio

Para variar um pouco, uma quadrinha estranha e nebulosa:

o sono cinza sobre o azul
tinge as paredes do teu quarto
de uma luz pálida entrecortada
uma janela para o nada

quinta-feira, maio 17, 2007

alguma coisa se alterou

alguma coisa parou
e eu deveria saber o quê
mas não sei

alguma coisa alterou seu ritmo de batida
e não foi meu peito
nem meu pé debaixo da mesa no meu tic nervoso

alguma coisa se mexeu e não foi ladrão
nem mosca, nem a gata dentro da cozinha
alguma coisa se repete e não foi essa reiteração

de alguma coisa vivo eu
e se se altera
é como estar andando numa esteira elétrica
que de repente para
ou aumenta de velocidade
e eu tropeço, assim,
do nada

alguma coisa se alterou
e eu penso que pode ter sido tanta coisa
que alteração de verdade seria se ficasse tudo igual

alguma coisa se alterou e não foi uma súbita necessidade de explicação
nem coceira no pé, nem nada

alguma coisa parou de se alterar
e se eu não descobrir já
em breve jamais saberei

domingo, abril 29, 2007

Não tem título

Sabe como ama um gato
um amor que não é fácil
e s'indolor

um amor não automático
um amor que indiferente
convivência sutilmente
todo o dia
e vela (`)a noite

meu deus como é bonito
que brilho é esse
de sol dentro da noite
quando tu me olha assim
tão penetrante indiferente

notar
depois de um dia inteiro
o gato
imóvel em cima da cama
ao lado do jarro das flores do armário

como pode amar assim um gato

Elegia

quarta-feira, abril 25, 2007

o pó ainda paira

da explosão de vidro da janela de um carro sem insufilme
nasceu esse mundo
pulverizado
informe
rasgante
e rasgado

brilhando
em parte
em cima da pista
Pó de vidro na poeira do asfalto.

meus olhos
ardem
me dói
a dor de cabeça
e eu nem sei
e eu nem vejo
mas,

O pó ainda paira.

domingo, abril 08, 2007

Os gatos aéreos de minha mãe

Para Yeti Braga
Por cima das telhas, olhos brilham no escuro. Os gatos aéreos pesam menos de um quilo e nunca tocaram o chão.

Minha mãe os alimenta à noite, sorrateira, para que minha vizinha histérica, que fica de vigília no apartamento de baixo, não veja. A luz da varanda acesa.

Os gatos se alimentam de camarões translúcidos os quais minha mãe lhes joga da altura de nosso segundo andar. Moro sozinho com ela aqui nessa cidade sozinha, num lugar qualquer entre prédios e casas. Minha gata Yeti desapareceu há três anos e foi achada morta pelo mesmo zelador que a matou, em um terreno baldio perto daqui. Sei que a vizinha do lado, amiga da histérica, foi quem encomendou sua morte. A velhinha não suportara o fato de ter como única visitante a gata esbelta e branca, mais branca do que a cor branca de seus cabelos. Yeti deslizava da minha varanda para a dela e completava o retrato de uma vida insuportavelmente solitária. O sofá azul, a tv ligada, o marido, eternamente dormindo na poltrona da sala e a sombra da gata, a sombra mais alva que a luz da tv.

As duas vizinhas jamais se viram, mas se reconheciam cúmplices nos gritos que ouviam durante o dia, as pragas se alternando entre os gatos da rua, as crianças do prédio e qualquer sinal de vida que viesse de fora. Foi depois da morte de Yeti que os gatos aéreos surgiram, toda noite prostrados em direção à nosso prédio, reunidos em um bando de seis. Como que em vingança, encaravam a velha no escuro quando levantava de madrugada para ir tomar água na cozinha. Os doze olhos vermelhos fixos na escuridão contra ela, a velha se apavorava.

A mim também sempre olhavam, não em vigia, mas como que na espera, e eu não podia fazer nada além de tentar desesperadamente adivinhar o que queriam. Não importa que horas da noite olhasse da minha janela, sempre encontrava os seis ou cinco gatos me encarando no escuro, como prestes a pular para dentro do meu apartamento .

E apesar da altura e distância, isso nada me parecia impossível, já que dado a alimentação peculiar que recebiam, era enormes, grandes e fortes e mais que tudo, leves feito aves. Não me surpreenderiam se fossem feitos de oco, como as cascas inteiras de camarão que minha mãe lhes jogava, todos os dias, depois de nos fazer o jantar com a carne que extraia. Só não teria certeza de que fosse assim porque aqueles olhos de lanterna vermelha pressupunham vir de um fundo tão fundo que era tudo menos vazio.

Eu rezava todas as noites pela vizinha tola, já que sabia que tanto Deus como o Diabo possuíam gatos e que em nenhum dos lugares teria misericórdia. A histérica reclamava das moscas, que comeriam o côcô dos animais, e a velha já esquecera a muito tempo de dar pretextos, ameaçando jogar carne envenenada para os gatos. A histérica passava as noites em vigília e ao ver os corpos ocos de camarão sendo jogados do andar de cima, espumava de raiva e juntava a energia que despejaria no dia seguinte amaldiçoando os gatos em voz alta.

Mamãe não as temia, mas crescia seu amor pelos gatos. Eles pareciam entender e aumentavam seu empenho, esperando em fila em cima do muro quando ela se atrasava. Não seria preciso dizer que nessas ocasiões apavoravam ainda mais a velha, mas a histérica jamais se apercebera porque nunca olhava pela janela.

Isso tudo até certo dia em que a velha não praguejou e a histérica, preocupada, foi finalmente ao seu apartamento conhecer a velha amiga. Encontrou marido e mulher mortos estatelados no chão, o boletim de polícia dizendo que morreram envenenados. Os gatos das telhas desapareceram, assim como o zelador, que pós fim ao inquérito assinando com a fuga o certificado de culpa, e nunca mais foi encontrado.

segunda-feira, abril 02, 2007

a queda da panela

A luz da tv ilumina o quarto na madrugada

o som é baixo
mas abafa o murmúrio da rua
que incomoda

vozes desconhecidas e deslocalizadas
o assobio insistente que começa difuso e ronda o quarteirão
barulhos esparsos e ritmados como que de passos na escada

o som da tv
o murmúrio por hora o abafa
uma pancada de metal ressoa alto e em seguida o silêncio absoluto
nem sequer os passos

agora só a respiração da cama ao lado
e aos poucos o barulho seco de uma gota alta
barulho esparso e ritmados
É o tempo nessa madrugada.

sexta-feira, março 30, 2007

paisagens (de aqui)

um pardal voa
e pousa
sobre os galhos secos
de uma planta seca

um indivíduo negro
no escuro
vira a esquina de uma vez
e o caminhante pula
pro outro lado da calçada
pensando ser um bote

o sibilo de cobra
do lagarto
na parede de pedra
palpita
no peito do passante

Branco tédio

Luz perpendicular amarela por venezianas na parede, às 16:30h

azulejos opacos revestem o hall
hall vazio, às 16:30h
tudo claro, até as formas
simples arestas aparadas
esterelizado histérico
lençol branco
tempo no tic tac do pingo do soro
nem analgésico, nem antibiótico,
ponto ou cicatriz
só soro

Minhas paredes são todas pintadas de branco gelo.

quinta-feira, março 22, 2007

caminho das pedras tortas

os pés sob o asfalto
a pressa o passo

atravesso a falta de espaço sob a sola do sapato

desequilíbrio no ralo
caminho das pedras tortas

a água escorre
rios entre as pedras esparsas
os pés entre suas margens
o equilíbrio bêbado e rápido

fuga do tempo
e dos carros

o teto da cidade

meio dia de chuva
nada mais urbano que a falta de asfalto
o subúrbio
suburbano
e calmo

sob céus de fios de cobre
o pingo da gota de chuva
escorrega
________na laje em decline
lambe a ponta da telha
e cai no áspero da calçada
encharca e

_________escorre
se levanta
e rola
____pelo vãos da calçada
se apossa dos seus buracos
e reflete o céu
com chãos de zinco

deixe estar

lembro do dia
em que meu olhar
cruzou com o teu
pelas costas
de calçadas opostas
e eu decidi, ali
te amar pra sempre
e só

terça-feira, março 20, 2007

céu de acrílico azul piscina


flutuando no cloro
o besouro morto ainda voa
luz ondulando ao meio dia

a água brilha mais que o asfalto

(Uma vez eu vi um mar tão bonito que parecia até uma piscina!)

um corpo perfura
a superfície azul e nuvem
que tremula

pele engelhada sobre azulejo trincado
o dedão do pé achatado risca o chão

um susto:

a pele não se corta

terça-feira, fevereiro 20, 2007

acontecimentos

eu espero
um acontecimento
mas quando acontece
é festa no outro apartamento

sentado aqui
já não sei quando tempo
sua espera
e uma divisão do sofá

toco com o olho
o telefone
em suspenso
alguns milímetros
mais próximos, nós dois

e lá no fundo
como barulho do mar
o som da solidão
encostada na varanda

(assoviando
pelas persianas
das venezianas)

e tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar

enquanto espero
de lá pra cá
pela cidade
seguindo a rota de cada dia
olhando pra baixo
pelo afeto que tenho pelos buracos da calçada
e do asfalto
e essas poças de lama
e panfletos amassados jogados ao chão

todos ali
pro que der e vier
sempre

pendulando
como o ventilador branco de teto
que tem de fundo a parede branca
e é meu relógio
e roda sem parar
projetando sombras na parede vazia
e entre quartos
e entre salas
mesmo ao apertar do interruptor
ainda girando e girando devagar
lances de luz de claro e penumbra no claro do branco
deslizando

pelo apartamento

terça-feira, janeiro 30, 2007

like a feather (you and me)

como uma pluma
envolta em ar e em si
e sem roçar, paira

isadora


o véu mais voa do que veste
a pele é uma penugem que se curva
e esses pés que partem e pousam
num ritmo de pássaro em cada pulso...





*Espetáculo em homenagem à bailadora Isadora Duncan
http://www.youtube.com/watch?v=zRaKB7n7XmM - parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=jvy-p4ljISU&mode=related&search= - parte 2

vi pétalas mas pensei plumas

e daí,
se as pétalas também já não voam
fora das flores
assim como as penas.

a não ser nas tuas mãos.