terça-feira, janeiro 11, 2011
Amigos conversam num bar. Parece segunda.
Não há ninguém na sorveteria.
Pedaços de conversa e de risos. Clima de Chuva.
Ela vai embora. O 'tchau' não tem gosto de até logo. Um aperto no peito.
Fotos dele na memória. Alguém se aproxima de mim na estação. Bonito, mas não tão bonito quanto você. Meu coração sorri.
domingo, novembro 28, 2010
Ah,
deitado, olhando pro teto, me espantando com a sombra que o ventilador branco impõe
sobre o teto branco, me apegando aos buracos da calçada e ao prédio que avisto ao longe no
caminho pra casa.
*texto que eu encontrei aqui de 2006, parte de um conto que eu nunca terminei.
quarta-feira, janeiro 20, 2010
ao feto
ser meu próprio pai
me aninhar nos meus braços
cuidar de mim
mas me deixo ao relento
a testa encostada no vidro de uma janela
sombras de gotas de chuva
me escorrendo o rosto
às vezes,
me embalando
entro em transe
percorro em mim
labirintos que não têm nome
nem fio de ariadine que me retorne à superfície
cuido-me como a um outro
e tanto e tão intensamente
que não resta qualquer alteridade
esse amor umbilical
se enrolando no pescoço
de um feto impossível
domingo, novembro 09, 2008
Iguatu

esse lugar
que é tanta coisa
mas não é,
em que eu já fui
mas não conheço
me evoca
certa sensibilidade
que não é minha
mas agora sim
o meu céu de Suely
o posto de gasolina
em que eu parava
no trajeto asa branca
fortaleza - barbalha
o que há de mais profundo em mim
como se a pré-adolescência
me cavasse tão fundo
como a infância
e tudo isso
o lá do fundo
o pós-tudo
o forró com melodia
do roxette
e a britney spears
truando
no som de carro
sob esse céu do Líbano
sem petróleo
mas com postos-BR
tudo isso
esse pouco
tão tudo
me elevasse
acima
desse céu sem núvens
só azul
só céu
é um lugar bonito
por onde passar
da tenra adolescência
ao mestrado por-fazer
em São Paulo,
a Nova York
do Ceará
domingo, novembro 02, 2008
vida de qualquer um
perde o gato
está gripado
compra uma cadeira
olha a chuva
declara sua renda
tira férias
vende a casa
assiste à demolição
lembra-se de maio
falta à obrigação
responde a perguntas
põe fraque
organiza o natal
espera uma carta
*índice do capítulo homônimo do livro ''cadeira de balanço'', carlos drummond de andrade.
sábado, agosto 09, 2008
Gato

barulho de patas
acolchoadas
peso macio
nas costas
garras me alisam
pelos me percorrem
a espinha
corpo intangível
somes na casa
mas teu sorriso
invisível
por todo lado
te acho
dormindo na cama
embaixo
tua coluna ondula
no decorrer do meu tato
com a ponta dos dedos
agarro a tua falta
rastros de pêlo
e um miado
eu roço
o vazio
arranho
o espaço
entre a tua presença
e a ponta do rabo
da tua presença
somente a falta
e uma lembrança
que dura
no meu braço
a tua garra
sábado, agosto 02, 2008
Aos poucos
Deslizar a cabeça sobre os lençóis. Acordar de novo. Sentar na beirada da cama. Ir ao banheiro. Enxaguar a boca, escovar os dentes, fazer xixi. Sentado.
Voltar à pia, escovar os dentes, sem pasta: tirar o acre da boca. Ir tomar café.
Desistir. Tomar somente água. Quem sabe um leite com açucar.
Sentar de frente à TV. Reunir forças. Pensar no que se tem a fazer. Deitar no sofá. Ver programas de TV. De culinária. Sentir um pouco de fome, esperar o almoço. Comer pouco.
Sentar em frente ao pc. Ver algumas notícias. Evitar os e-mails mais sérios. Começar a se arrumar na hora em que deveria estar saindo de casa. Sair de casa na hora em que deveria estar chegando lá.
Andar pululando de calçada em calçada, buscando as sombras. Se encostar atrás da parada, pensar um pouco. Se erguer impaciente, o ônibus chegando. Não ser a linha correta. Esperar o outro. O outro. E o outro. Enfim.
O sol no rosto. Sentar-se no lado da sombra, um desejo. Não haver vaga. Ir em pé. Chegar meio vivo. Seguir a pé. Atravessar a rua. Fazer as coisas. Sutilmente. Todas as coisas. De cada vez.
Se aos 15 eu achava que iria ir morrendo, aos poucos, hoje eu vejo que não, que eu vou vivendo, que eu venho vivendo. Aos poucos.
quarta-feira, julho 09, 2008
29 de Fevereiro
Estar escrevendo
é dizer
Quem se é
Naquele exato momento
Que todo tempo eu me elaboro
Mas quase nunca me enuncio
Quando o faço é caso raro
Quase sempre de cansaço
De tanto me desinventar
Eu sou todo desmontado
Vou me espalhando
Eu me espraio
Eu vou ficando
Ralo
Esparso
Bissexto
sábado, abril 12, 2008
Poema para uma mosca morta

Vendo a mosca morta assim
Estatelada
Morta mesmo
Sobre a fórmica branca
Limpinha
Patas pra cima
Olhos estáticos
Asinhas coladas ao chão
Pobrezinha
Me vem até certa comoção
Mas isso vendo-lhe assim,
Tão pequenina
Mas imaculada
Sem destroço
Nem nada
As duas asinhas meio tortas
Mas ainda coladas ao corpo
Caso contrário,
Sentiria só nojo
Percebo, assim
Que a cota
Do que me toca
É como você,
Pequenina
Morta assim
Inteirinha
Sem asa pra um lado
Nem sangue espalhado
Consegues pousar leve
Sobre a minha consciência
E se instalar
Nessa superfície branca
E insípida
Constato
Não sem horror,
Mas com certa alegria,
Que o meu estômago
E simpatia
Só respondem a uma certa quantia
De carne e de osso
Ou parentesco
Na escala evolutiva
Um bom exemplo,
A foto do elefante morto
Congelado, nas geleiras do Himalaia
Mesmo encontrado inteiro
Imaculado
Faltando na verdade somente a ponta do rabo
Isso sim
Me ojeriza
E tomba
Sobre a minha espinha
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Pequena história de uma crise de cognição

Minha avó
Que é uma famosa
Diretora de curtas-cabeça
Me dizia
Desde bem pequeno
Que o homem
É uma maquininha de fazer sentido
Disse que ele faz isso
Desde muito antes de Cristo,
Pelo qual alguns martelam sua dor,
Até a Guerra no Iraque
Que para alguns é justa
E para outros, santa
que até esse cigarrinho
Que ela me pegou aqui fumando escondido
Em plena altura dos meus doze anos
No enterro do meu pai
Tem sua certa explicação
Foi quando eu protestei
Ora, vó, veja bem
Que foi muito foda
Ver meu pai atropelado
Por um assaltante
No seu próprio carro
Que sentido só não teria
Se em vez de cigarro fosse um charuto
E eu fiquei muito puto
Porque pode tudo ter sentido?
Eu reluto
Eu me recuso
Em dar sentido ao absurdo
domingo, dezembro 23, 2007
Um homem só com guarda-chuvas
quinta-feira, novembro 08, 2007
Câmera escura

Estou olhando agora por uma câmera escura. Tenho procurado me delimitar. Aos poucos. Faço cada dia menos coisas. Negação? Sim, digo a quase tudo um sonoro não. Porque meu sim sempre foi fingimento, e não para ninguém, mas para mim mesmo. Melhor estou enquadrado, jogando na sombra tudo que eu não dou conta. Não deixa de existir. Mas eu existo.
domingo, outubro 14, 2007
Domingo de repordução em massa.

Faustão é um dado do tempo. Faustão é o domingo.
Ah, esse gosto exagerado de doce na boca. O cara barrigudo deitado no sofá. A tal da patroa. Barriga cheia e fome. Sorvete depois do almoço. Piada gasta. Doçura mórbida. Há algo de enterrro em tudo isso. Há um morto faltando. Não sei o que faria sem você. De alguma maneira, acho que gosto de ti. Não sei o que seria do domingo. Porque é assim que a semana termina. Não com um sábado, mas com um domingo.
E a segunda começa depois do fantástico.
domingo, setembro 30, 2007
Por um fio
Você está suspensa em pequeninhos fios de nylon
És como uma marionete quebrada:
Eles só te mantêm erguida, querida,
pra que você continue pendurada.
Corte os fios. Não arranque os cabelos.
Não use mais Vicodin.
Descobri que gosto mais de ti quando me decepcionastes.
Não que tenhas feito nada de errado. Mas por ter te descoberto. Nua, sem decote.
Por um tempo, fingi que esqueci. Agora, com desejo seco, te observo, impassível, cruelmente, esperando que te reergas. Quando vais voltar a ser aquilo que eu sempre quis que fosses e não eras?
Chega de abismo, querida. Eu quero a tua vertigem.
sábado, agosto 18, 2007
As jujubas ambulantes

Dois meninos negros em um ônibus. Ambos possuem, aparentemente, a mesma idade: digamos, uhm, cinco anos. Um está sentado, perninhas balançando no assento: sua mãe está na fileira de cadeiras ao lado. O outro está de pé e percorre o corredor vendendo jujubas. O de pernas empinduradas lhe olha, avidamente, olhos arregalados e boca entre-aberta. O menino, sem nenhuma expressão, faz seu trabalho. Na volta, passando por nós, ele recolhe os pequenos pacotes e o que está sentado se inquieta no assento, se erguendo para lhe ver partir, docemente estupefato.
Sua mãe não lhe quis, afinal, comprar o doce?
domingo, julho 22, 2007
O vidro e a paisagem
o ar-condicionado no máximo
dando aquele clima diferenciado
mendigos na calçada
coreografia dos gestos displicentes
cenografia de novela da globo
lugar em que a gente se sente
fora da cidade
avenida de prédios baixos
vitrines de dois andares
o céu estalando de azul
o clima intimista da iluminação pontual
o negro ameaçador guardando o carro
a transparência dura
enquadra e funda a paisagem
quinta-feira, julho 05, 2007
chuvas de Junho
os pingos de chuva
que apagam o sol de meio dia
A calçada
pela primeira vez é fresca
e os pés se apressam,
culpados,
sob o doce prazer
de estar ficando gripado
Eu gosto mais de maio
Hoje a saudade bateu
PÁ, PÁ, PÁ!
Deu dois tiros e sumiu
(Seu cheiro passou
enquanto eu esperava
na parada)
domingo, maio 27, 2007
nimbus de maio
o sono cinza sobre o azul
tinge as paredes do teu quarto
de uma luz pálida entrecortada
uma janela para o nada
